terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Como Ontem Não Fiz Isto Antes Receando




O filme CONFIAR traz para nós, professores, pais, filhos e sociedade em geral, um tema que além de polêmico é também muito divulgado, porém, pouco tematizado por nossa mídia (TV, jornais, Facebook, Twitter, Orkut, etc.). E o poder que essas ferramentas de entretenimento têm sob as pessoas é muito grande. O modelo de família feliz, com êxito, enfim, perfeita, é desfigurado a partir do momento que o pai presenteia sua filha de 15 anos de idade com um computador portátil, pensando assim ter feito um ótimo negócio ao inserí-la num mundo moderno e cheio de novidades tecnológicas.
A garota deslumbrada com o computador que acabara de ganhar como presente de aniversário inicia sua viagem ao fascinante mundo virtual desconhecido por ela e também por seus pais, que pouco observam por quais sites a menina está navegando e com quem a mesma passa a manter amizade. Até que um belo dia ou, melhor dizendo, infeliz dia que ela se aproveita de uma saída deles para ir ao encontro daquele que a conquistara, mesmo sabendo que ele já havia mentido para ela acerca da sua real idade. No encontro, ela acaba descobrindo de uma vez por todas que, na verdade, ele é muito mais velho do que realmente dizia, mas mesmo assim ele consegue iludí-la e levá-la para um motel. E não só mantém relação sexual com a menina como também filma tudo sem que ela perceba.
Os dias se passam e a menina, mesmo assustada com tudo que aconteceu com aquele que, na verdade, tinha idade para ser seu pai, começa a sentir sua falta e depara-se com o inesperado: a paixão descomedida por um homem que além de ser vinte e um anos mais velho que ela, é obscuro e cheio de más intenções. A vida dessa garota torna-se um subsistir conflituoso em todas as suas relações, principalmente, com seu pai, que, ao saber do que aconteceu com sua filha querida, busca desenfreadamente a cabeça daquele que havia desonrado-a, não medindo esforços para isso e nem levando em consideração se os seus meios eram lícitos ou não.
Em meio a todo esse caos em que se transformou a rotina da família, a menina não enxergava o homem com o qual se encontrou como um mau caráter, criminoso, isto é, pedófilo. Ela acreditava que tudo só havia acontecido porque eles se apaixonaram um pelo outro e a reação de todos ao seu redor se devia exclusivamente ao preconceito de idade. Por isso, se revoltou ao perceber a obsessão com a qual o pai caçava o cara que a tinha ludibriado. Assim, o relacionamento entre pai e filha ficou profundamente abalado.
No final, eles se desculpam mutuamente.
E o que acontece com o criminoso? Nada. A justiça não consegue encontrá-lo e ele continua vivendo ao lado de seu filho e de sua esposa normalmente. E o pior de tudo: mantendo a imagem de ótimo professor de Ensino Fundamental II, ou seja, de adolescente. Apesar de já ter abusado de, pelo menos, quatro garotas.
O que conseguimos ver nesse filme é uma realidade assustadora tanto ao que diz respeito à sociedade (no sentido de termos verdadeiros monstros infiltrados e camuflados nela, sob pele de cordeiro) como também de famílias (no sentido de, muitas vezes, ficarem um tanto alheias ao que está acontecendo com os seus filhos, talvez sob o pretexto ou a real crença de que eles já sabem o que devem ou não fazer).
As crianças e os adolescentes estão muito entregues a si mesmos e à mídia no geral. Não há um monitoramento maior por parte dos seus responsáveis. E esses jovens acabam ficando à mercê de um mundo muito atraente e que, às vezes, pode acabar criando verdadeiras armadilhas onde não haja retorno e, quando há, podem deixar eternas e indeléveis cicatrizes.
Estamos consentindo que as tecnologias, os avanços que a sociedade tem alcançado usurpem o que de mais precioso possa existir no seio de uma família: o diálogo!
Ao permitir que máquinas apoderem-se de algo tão essencial na convivência humana, estamos nos alienando e nos deixando sucumbir por elas.
É preciso uma tomada de consciência seguida de ações verdadeiramente concisas, ou seja, que nossas ações possam exprimir mudanças reais e eficazes não só no âmago das famílias, mas na sociedade como um todo.
Por melhor que os nossos filhos sejam, não devemos confiar TOTALMENTE neles, principalmente, na infância e na adolescência, porque nessas fases eles estão em formação, ou seja, ainda não estão formados. Eles precisam e contam com a nossa presença e intervenção.
Como dizia Baltasar Grácian, “a confiança [exagerada] é a mãe do descuido”.
Até quando nos descuidaremos das nossas obrigações como pais e educadores?
Sobre o filme como um todo, é muito bom, realista e tão sensível quanto poderia ser num assunto tão delicado como este. Em suma, nota 10!